artigos - 01/07/2024

Inteligência Artificial e mercado de trabalho: dois impactosinevitáveis?

Hélio Zylberstajn

Introdução

A motivação para escrever este pequeno texto nasceu com a leitura de um artigo recente de David Autor, sobre o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho. Recomendo a leitura pois o texto aborda o tema com originalidade, competência e até mesmo com surpreendente otimismo. Seu argumento central é que a IA pode produzir impactos positivos no mercado de trabalho, pode repovoá-lo com empregos de qualidade e pode reverter o processo de crescimento da desigualdade na renda do trabalho. Muito do que vou dizer aqui se inspira nas ideias que David Autor expõe no citado artigo, que compartilho em grande medida.

Antes de começar, mencionarei dois impactos da IA, que têm sido documentados: a eliminação de empregos e o esvaziamento dos espaços destinados aos trabalhadores de qualificação média na estrutura ocupacional. Para ilustrar o argumento da eliminação de empregos, trarei dois exemplos recentes que a mídia tem apresentado. O primeiro, é o uso da IA para imitar vozes de dubladores e de artistas na produção de vídeos e filmes. Como o público reconhece e associa algumas vozes a determinados personagens, para manter a associação, as produtoras substituem as vozes originais por vozes emitidas por procedimentos de IA. Às vezes, as vozes substituídas são de pessoas mortas e outras vezes a substituição tem o objetivo de reduzir custos. De qualquer forma, a voz falsa destrói oportunidades para outros dubladores, reduzindo o espaço neste mercado. Essa prática, evidentemente, gera disputas na Justiça quando não há autorização prévia para reproduzir as vozes originais..

O segundo exemplo de notícia ruim, e um dos que mais tem repercutido, é a opinião bastante radical de Elon Musk sobre o assunto. Ele tem dito em diversas ocasiões que “a IA vai tirar todos os nossos empregos.”. E mais: segundo Elon Musk, o trabalho será uma atividade optativa e se todos quiserem trabalhar, não haverá postos de trabalho suficientes. Notícias sobre os dubladores e outras semelhantes, que relatam a extinção de ocupações e profissões, contribuem para validar a opinião de Elon Musk e alimentam o temor sobre o futuro do trabalho. Evidentemente, para que as previsões pessimistas se confirmem, a IA precisaria adquirir a capacidade de executar um grande número de atividades em um grande número de ocupações.

Vamos agora à segunda ameaça, que é a aparente seletividade da IA na escolha de ocupações cujas atividades consegue substituir. Até recentemente, a tecnologia tinha conseguido substituir o trabalho humano em atividades rotineiras. Agora, aparentemente, a IA está superando os robôs porque consegue substituir o trabalho humano em ocupações não rotineiras. Essa capacidade deriva do processo de aprendizado de máquina (machine learning), com o qual os algoritmos ensinam o computador a fazer escolhas em situações múltiplas e distintas. Em geral, o trabalho humano que exige a tomada de decisões está associado a ocupações de algum nível de qualificação, que se situam em posições intermediárias da estrutura ocupacional. Exemplos de ocupações potencialmente substituíveis pela IA seriam, desde o motorista, que toma decisões na condução do seu veículo, até o advogado iniciante que elabora petições e outras peças jurídicas. De fato, a IA tem invadido espaços ocupacionais que se enquadram nestes exemplos e, quando os trabalhadores deslocados não têm capacidade para se adaptar e para adquirir competências superiores, acabam se deslocando para extratos inferiores na escala ocupacional. Neste processo, a ameaça de polarização ocupacional e de crescimento da desigualdade no mercado de trabalho acabaria por se materializar. Mas, para que este processo avance e produza efeitos relevantes, a IA precisará aprender a tomar decisões em uma grande parte das ocupações.

Os dois impactos aqui mencionados, a eliminação de postos de trabalho e o deslocamento para baixo de trabalhadores com qualificação média, podem, de fato, ocorrer e, se a magnitude dos dois impactos for relevante, o resultado seria devastador. Dito isto, cabe a pergunta: qual seria a probabilidade deste cenário se concretizar? Seria grande ou pequena? Se grande, haveria alguma forma de evitá-la? Talvez um olhar retrospectivo sobre a história das inovações tecnológicas seja útil para construir respostas a estas perguntas.

A IAe as ondas anteriores de inovação tecnológica

A inovação tecnológica se materializa de duas maneiras: com o lançamento de novos produtos (novos bens ou novos serviços) e/ou com a implantação de novos processos. O impacto de um novo produto no emprego é positivo, pois cria um mercado que antes não existia. O novo produto induz a expansão do consumo e da demanda de trabalho e o resultado é o crescimento do emprego. Por outro lado, o impacto de novos processos vai na direção inversa. Em geral, novos processos, que substituem processos menos eficientes, aumentam a produtividade e reduzem, consequentemente, a quantidade de postos de trabalho. Muitas vezes, é difícil separar os dois fenômenos, que, na verdade, caminham juntos. Para produzir um novo produto, é preciso, muitas vezes, criar um novo processo concomitantemente. Por outro lado, um novo processo pode estabelecer as condições para a produção de um novo produto.

A inovação tecnológica destrói empregos quando torna obsoleta uma forma de produzir e/ou quando substitui um bem ou serviço por outro, mais moderno e mais útil. Ao mesmo tempo, expande o emprego quando cria novos produtos. É um movimento contínuo de destruição e de criação e, historicamente, o resultado líquido tem sido, até hoje, a expansão dos mercados de trabalho. 

Ao mesmo tempo em que tem expandido o nível de ocupação, a inovação tecnológica tem modificado o mercado de trabalho porque tem redistribuído as duas atividades fundamentais que os trabalhadores precisam assumir no processo produtivo: a execução e a decisão.

Antes da Revolução Industrial, a produção de bens ocorria em pequena escala e era executada por artesãos, que se associavam em guildas ou corporações de oficio, nas quais treinavam assistentes que se tornariam artesãos mais tarde. O mundo da produção era bastante regulado e o acesso às profissões artesanais muito controlado. Nesse mundo, o trabalhador (o artesão) detinha os dois papéis: tomava as decisões necessárias para a execução das atividades e, ao mesmo tempo, ele as executava. Decisão e execução estavam concentradas na mesma pessoa.

A Revolução Industrial trouxe a fábrica e a máquina, destruiu o sistema das corporações de oficio e mudou o processo de produção de uma maneira profunda: separou a atividade da execução (que ficou a cargo dos trabalhadores) da atividade de decisão (que passou para o administrador).

Quando o sistema industrial evoluiu para a produção em massa, a separação entre a esfera da execução e da decisão se aprofundou e consolidou. De um lado, ficou toda a massa de trabalhadores e, de outro, a elite gerencial. Mas, ao mesmo tempo, iniciou um processo de devolução de algum espaço decisório para o trabalhador, pois a operação da máquina envolve algumas decisões que o trabalhador-operador precisa tomar. É necessário que o trabalhador tenha algum conhecimento para operar a máquina e executar suas tarefas.

A mecanização, a robotização e o computador continuaram a aprofundar a divisão entre a execução e a decisão, mas ao mesmo tempo demandaram conhecimentos e habilidades mais sofisticados e criaram novos espaços para decisões a cargo dos operadores. Para explicar este movimento complexo de separação entre os espaços da decisão e da execução que, paradoxalmente, cria novos espaços de decisão para os executores, vou me valer do caso da Enfermeiras Praticantes dos Estados Unidos, citado por David Autor. 

Nos anos 1960, para enfrentar a escassez de médicos, um grupo de médicos decidiu ampliar o escopo do trabalho das enfermeiras, transferindo para elas algumas decisões que até então somente eles podiam tomar. As decisões envolviam prescrição de remédios, decisão sobre condutas e tratamento. Os médicos sabiam que as enfermeiras eram muito bem preparadas (embora não tão bem como os médicos) para assumir as novas funções. Criaram um programa de treinamento rigoroso e certificaram as enfermeiras para assumirem o novo papel de Enfermeiras Praticantes. Recentemente, o avanço da Tecnologia da Informação disponibilizou uma massa de dados que as enfermeiras podem usar para tomar mais decisões e de forma mais segura. A quantidade de empregos de Enfermeiras Praticantes tem crescido a taxas muito grandes, nos anos recentes. Este é um exemplo importante porque, primeiro, mostra que o avanço da tecnologia pode dar suporte à criação de espaços decisórios para trabalhadores de qualificação menor que os da elite ocupacional decisória. Segundo, mostra que a tecnologia amplia as oportunidades de trabalho que antes eram ocupadas apenas pela elite ocupacional.

A nova onda de mecanização descortinada pela IA continuará este movimento contraditório de separação entre a execução e a decisão, que, simultaneamente amplia espaços de decisão para os executores? Não sabemos, porque não sabemos como a IA será usada. Há basicamente duas trajetórias possíveis. Uma, intensificar o aprendizado de máquina cada vez mais, sem nenhum controle, até o ponto em que o computador assumirá de vez a capacidade total de tomar decisões. Supondo que esta hipótese possa ocorrer, se escolheremos este caminho, as previsões de Elon Musk se confirmarão. Pelo que sabemos hoje, não há certeza sobre a capacidade da IA de assumir o papel de decisão absoluta e total.

No outro caminho, mais realista e mais promissor, poderíamos conscientemente limitar o processo de aprendizado de máquina, com o objetivo de reservar propositalmente algum espaço decisório para os trabalhadores. A consequência dessa decisão seria um mercado de trabalho crescente, ampliação da quantidade de empregos com maior conteúdo de qualificação e conhecimento e a reversão da desigualdade de renda.

Os dois impactos são inevitáveis?

Para David Autor, o desemprego e a desigualdade não são inevitáveis. E eu concordo com ele. O avanço da IA não necessariamente destruirá todos os empregos e não necessariamente aumentará a desigualdade. É possível controlar seu uso para evitar que a previsão de Elon Musk se concretize. Mas, para isso, será preciso criar instituições e sistemas de governança capazes de decidir sobre o uso da IA. Será preciso também – isso é muito importante – qualificar e treinar a mão-de-obra, capacitando-a a ocupar competentemente os novos empregos.

A sociedade tem tido até hoje uma conduta passiva diante da inovação tecnológica. Isso tem sido bom, porque tem estimulado e permitido que a inovação aconteça e induza o crescimento econômico. Para ficar nas duas categorias utilizadas aqui – execução e decisão – a sociedade tem assumido apenas o papel de executor da inovação tecnológica. A IA vai nos forçar agora a assumir o outro papel e decidir sobre como utilizá-la.

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Professor Sênior da FEA/USP e Coordenador do Salariômetro da Fipe



Dr. Marcelo Mascaro

Advogado do Trabalho, CTO

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