Torcida única: medida lógica, adoção oportunista

Direito Desportivo
Torcida única: medida lógica, adoção oportunista
Jean Nicolau

É compreensível a medida – certamente reativa, mas não reacionária – que impõe os chamados clássicos com torcida única em São Paulo.

Tanto o momento (pós-tragédia) do anúncio da proibição, quanto sua forma (coletiva de imprensa conduzida pelo secretário paulista de segurança pública) podem ser criticados; seu conteúdo, não.

Por uma vez, discorda-se frontalmente de grande parte da opinião pública, por assim dizer, livre e esclarecida, que repudiou a determinação da secretaria paulista de segurança pública.

Explica-se.

Quem contesta a medida indica, sobretudo, que, além de (i) restringir a pluralidade no futebol, ela (ii) não atinge o cerne do problema (violência generalizada e impunidade no país).

Posicionar-se pela manutenção das regras atuais em nome do pluralismo no futebol denota desinformação ou ingenuidade.

Por óbvio, não se assegura tal pluralismo por meio da cessão de 5 ou 10% dos ingressos de uma partida a torcedores visitantes. Muito menos quando, em regra, estes últimos são não apenas membros de organizadas, como também beneficiados com repasses gratuitos graças à habitual complacência dos clubes. Clubes que, não raro, compram a carga de bilhetes a que seus torcedores têm direito justamente para cedê-la a grupos organizados. Os exemplos são muitos, sobretudo em competições internacionais, como a Libertadores; tal afirmação é feita, vale dizer, com conhecimento de causa.

Mas o principal aspecto ignorado pelos que defendem a diversidade no esporte é que a organização de clássicos de torcida única não impede o torcedor visitante “comum” de assistir a uma partida in loco: basta adquirir um ingresso igualmente comum. Respeito à pluralidade, nesse caso, parece combinar mais com tolerância das diferenças dentro da mesma tribuna (ideal bem distante) do que com a atual demarcação de uma minoria.

Sobre o segundo argumento, é evidente que a proibição de torcida visitante está longe de ser a solução para a violência do futebol. Essa função nitidamente acessória não lhe retira, no entanto, sua utilidade prática.

Afinal, não é razoável que a Polícia Militar tenha de destacar, a cada clássico, efetivo suficiente para organizar o cortejo de grupos até os estádios. Se parece curioso aos que desconhecem os usos e costumes do meio, é exatamente o que ocorre na prática. De modo que apenas pelo fato de evitar que policiais sejam incumbidos de tal missão em detrimento de outras, como a repressão aos frequentes arrastões nas imediações das arenas, a medida já seria legítima.

Em tempo: não houve constatações quando, após os atentados de 13 de novembro, o governo francês determinou, exatamente por meio de um ato administrativo, a realização de jogos sem torcida visitante em todo o país. Motivo: as forças de ordem tinham outras prioridades que não o cortejo de torcedores em deslocamento.

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