Ainda há pouco mercado formal de trabalho para as mulheres trans/travestis

entenda as dificuldades insercao das mulheres trans no mercado de trabalho

Por Débora Bobra Arakaki

Muito mais do que compreender como são as experiências das mulheres travestis no mundo do trabalho sob o contexto de emergência de políticas e práticas em diversidade está a questão de situar o debate sobre as mulheres travestis no mundo do trabalho, identificando os fatores estruturais, sociais e familiares que permeiam a inserção e participação das mulheres travestis no mundo do trabalho; e compreendendo as condições particulares de existência das travestis afetam a construção de suas vidas profissionais; e finalmente analisando as possibilidades, bem como as perspectivas e desafios enfrentados pelas mulheres travestis no ambiente laboral.

Quem são?

Longe de querer conceituar de maneira absoluta, mas dando um fio condutor e termos difíceis de serem compreendidos, nosso texto traz destaque às mulheres transexuais e as travestis. As transexuais seriam aqueles que vivem a incompatibilidade de gênero, com a sensação de ter um corpo errado. Geralmente as transexuais querem fazer a transição física para o corpo do sexo oposto. Já as intersexuais são as pessoas que se afirmam como gênero indeterminado. Os Gêneros quer ou não binários contempla pessoas que mesclam uma combinação entre os gêneros feminino e masculino ou nenhum deles e ainda há o Gênero Neutro, com as pessoas que se identificam como sem gênero.

Em que pese o uso abundante do conceito mais genérico de pessoa trans, muitos autores destacam que esse termo ‘guarda-chuva’ pode não ser adequado à proposição de ferramentas para propor ações igualitárias, limitando as práticas de diversidade.

Por outro lado, defende-se que para propor políticas organizacionais, é preciso que se adote um conceito que seja também operacionalizável. Por isso que, apesar de um conceito mais abrangente, é preciso se atentar para as categorias internas tangentes às experiências das pessoas trans e por consequência, a literatura existente tenta distinguir alguns desses grupos particulares inseridos no grupo trans.

Quanto às dificuldades de inserção e permanência no mercado de trabalho 

A grande verdade é que ainda existe uma lacuna na literatura em Gestão de Pessoas em relação ao ponto de vista das pessoas trans e por isso, a criação de redes de trabalhadores de grupos LGBT e aliados heterossexuais que demonstram apoio à causa LGBT nas empresas têm sido uma estratégia adotada por empresas multinacionais no Brasil, como estratégia para gerar resultados positivos.

Apesar de ainda poucos em quantidade, os trabalhos publicados sobre travestis e transexuais e as suas experiências na dimensão trabalho nos trazem a demarcação de espaços profissionais na perspectiva de que existem algumas limitações ou constrangimentos acerca do que uma mulher travesti faz, ou poderia fazer; a realidade é que sobra pouco espaço, ainda, no mercado formal de trabalho. Infelizmente!

Ao contrário de uma parcela de gays e lésbicas que, a despeito de suas dificuldades de acesso e permanência no mercado de trabalho nas empresas, podem e até conseguem ocultar sua identidade sexual, às travestis e grande parcelas das transexuais não existe possibilidade de ocultar sua identidade de gênero, tornando sua perspectiva real de opção de trabalho no mundo corporativo atual, mais restrita, limitando-se a grandes empresas, que possuem uma cultura organizacional mais elástica.

Muitas experiências trágicas colecionadas ao longo da vida profissional das pessoas trans faz com que elas sejam impulsionadas a se incluir em setores econômicos de informalidade, a até no trabalho sexual ainda nos dias de hoje!!

Entre as indústrias mais receptivas às trabalhadoras trans também está a de entretenimento. Por isso que não basta que a legislação faça a afirmação do direito das pessoas travestis ao trabalho, são necessárias estratégias que garantam que a inserção profissional das pessoas trans seja viabilizada na prática; outras estratégias de auto inclusão das pessoas trans no mercado de trabalho incluem a adesão ao home-office, aceitando trabalhos que possam ser realizados em contexto de privacidade.

Essa escolha muitas vezes deriva da experiência de estar em ambientes de trabalho presenciais no passado e que, por não poderem ter o controle de com quais pares deveriam se relacionar, experiências ruins foram inevitáveis e assim sendo, poder trabalhar de forma autônoma também é uma forma de a pessoa trans se blindar de relações aviltantes vivenciadas no dia a dia profissional do mundo corporativo.

Principais desafios a serem enfrentados

Em suma, existem ainda inúmeras barreiras estruturais a serem enfrentadas por pessoas trans para percorrer desde o ciclo educacional do ensino básico ao ensino superior a fim de que se cumpram os requisitos básicos necessários às vagas nas empresas participantes disputando vagas de estágio e trainee em grau de igualdade.

Num segundo momento, a inserção de trabalhadoras trans travestis em postos de trabalho nas empresas é um passo muito importante para a inclusão e o reconhecimento social dessas pessoas, mas é preciso que o mundo corporativo considerem as particularidades de vivências e as desigualdades históricas e duráveis vividas por cada uma delas!

Neste esteio, também é de suma importância que as empresas atuem no sentido de garantir que essas trabalhadoras permaneçam em seus quadros, garantindo a elas um ambiente corporativo respeitoso à diversidade. A impossibilidade de contratar uma trabalhadora trans travesti não pode ser usada como justificativa para que não haja nenhuma ação de suporte da empresa a essa comunidade porque também é possível apoiar outras organizações que atuam no enfrentamento das violências vividas pela comunidade trans, incluindo particularmente ações direcionadas à capacitação profissional.

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